Como vivemos e como poderíamos viver

William Morris

IMPORTANTE: esta é uma tradução feita rapidamente por mim e ainda não revisada. Peço, portanto, que não divulguem.

*Esse texto é a versão impressa de uma palestra proferida por Morris em 1884, na casa de Kelmscott, para o braço de Hammersmith da Federação Democrática Socialista. O texto integra o livro Sinais de mudança (Signs of change), compilação de textos do autor publicada pela primeira vez em 1888 por Reeves & Turner (Londres).

 

O termo Revolução, que nós socialistas somos tão frequentemente forçados a empregar, soa de maneira terrível no ouvido da maioria das pessoas, mesmo após explicarmos a elas que seu significado não é necessariamente o de uma mudança acompanhada por tumulto e várias formas de violência, e não pode ser o de uma mundança realizada mecanicamente e contrária à opinião pública por um grupo de homens que tenha de algum modo logrado tomar o poder executivo. Até mesmo quando explicamos que utilizamos o termo revolução em seu sentido etimológico, fazendo referência a uma mudança na base da sociedade, as pessoas se assustam com a idea de tão vasta mudança, e rogam que se fale em reforma e não em revolução. Como, contudo, nós socialistas não empregamos o termo revolução no mesmo sentido que essas pessoas empregam o termo reforma, não posso deixar de pensar que seria um erro utilizá-lo, independentemente do projeto que se possa querer ocultar com esse inofensivo invólucro. Por isso, vamos manter nosso termo, que significa uma mudança na base da sociedade; ele pode assustar as pessoas, mas irá ao menos alertá-las de que há algo assustador, que não se tornará menos perigoso por ser ignorado; e pode também encorajar algumas pessoas, e para estas não trará medo, mas esperança.

Medo e esperança – esses são os nomes das duas grandes paixões que governam a raça humana, e com as quais os revolucionários precisarão lidar; dar esperança aos muitos que são oprimidos e medo aos poucos opressores, essa é nossa tarefa; se dermos esperança aos muitos, os poucos necessariamente ficarão amedrontados com sua esperança; de outro modo não queremos amedrontá-los; não queremos vingança para os pobres, mas felicidade; com efeito, que vingança poderia ser exercida pelos milênios de sofrimento dos pobres?

Apesar de tudo, muitos opressores dos pobres, sua maioria, podemos dizer, não estão conscientes de serem opressores (veremos em seguida por que); eles vivem de maneira ordenada e quieta, tão distante quanto possível dos sentimentos de um senhor de escravos romano ou de um Simon Legree; eles sabem que os pobres existem, mas seu sofrimento não se apresenta a eles de maneira incisiva ou dramática; eles possuem seus próprios problemas, e certamente pensam que lidar com infortúnios é o destino da humanidade, além de não possuirem meios de comparar os problemas de suas vidas aos problemas que enfrentam os menos afortunados; e se alguma vez o pensamento desses pesados infortúnios se lhes apresenta, eles se consolam com a máxima de que as pessoas se acostumam aos infortúnios que precisam suportar, não importa quais sejam.

Com efeito, no que diz respeito aos indivíduos, essa máxima é mais do que verdadeira, de modo que se apresentam como apoiadores do atual estado de coisas, por pior que ele seja, primeiro aqueles confortáveis opressores que acreditam ter que recear qualquer mudança que envolva mais do que uma reforma leve e gradual e, em segundo lugar, os pobres, que, vivendo de maneira dura e ansiosa, dificilmente conseguem conceber a possibilidade de qualquer mudança positiva, e não têm coragem de arriscar nem uma pequena fração de suas poucas posses para procurar uma possível melhoria de sua condição; assim, enquanto não pudermos fazer mais do que inspirar medo nos ricos, será de fato difícil oferecer alguma esperança aos pobres. E é razoável que aqueles que tentamos envolver na grande luta por um modo de vida melhor do que o atualmente vigente solicitem de nós ao menos uma ideia de como essa vida poderia ser.

Uma solicitação razoável, porém difícil de satisfazer, uma vez que vivemos sob um sistema que torna os esforços conscientes na direção de uma reconstrução quase impossíveis: não seria despropositado respondermos: “existem alguns obstáculos claros ao real progresso do homem; nós podemos dizer-lhes quais são; remova-os e será possível ver”.

Não obstante, tenciono agora oferecer-me como vítima para a satisfação daqueles que consideram que as coisas como estão nos oferecem ao menos algo, e atemorizam-se com a idea de perdê-lo e se encontrar pior do que antes, sem nada. Ainda assim, ao longo de minha tentativa de mostrar como poderíamos viver, precisarei em maior ou menor grau, fazer uso de negativas. Quero dizer com isso que precisarei apontar em que aspectos, na minha opinião, nós falhamos em nossas atuais tentativas de garantir uma vida decente. Será necessário perguntar aos ricos e bem sucedidos que posição é essa que eles anseiam preservar a qualquer custo. E se, de fato, seria uma perda tão terrível prescindir dela. E será necessário apontar aos pobres que eles, com capacidades para viver uma vida digna e generosa, encontram-se em uma posição que não podem suportar sem constante degradação.

Como vivemos, então, sob o atual sistema? Vejamos.

Primeiro, é importante compreender que nosso atual sistema social se baseia em um estado de guerra perpétua. Algum de vocês pensa que assim deve ser? Eu sei que frequentemente lhes disseram que a competição, regra atual de toda a produção, é uma coisa boa, e estimula o progresso da raça; mas aqueles que dizem isso deveriam se referir à competição por seu nome abreviado, guerra, se quisessem ser honestos, e vocês poderiam decidir então se a guerra estimula o progresso de maneira diversa daquela que faria um touro perseguindo-os em seu próprio jardim. Guerra ou competição, como se queira chamar, significa, na melhor das hipóteses, perseguir seus próprios interesses ao custo da perda de outros, sendo necessário, no processo, que nem mesmo seus próprios bens sejam poupados, sob pena de uma derrota na disputa. Vocês compreendem perfeitamente que esse é o caso naqueles tipos de guerra em que se vai para matar ou morrer; nesses tipos de guerra em que navios, por exemplo, são empregados para “afundar, queimar e destruir”; mas parece que vocês não têm a mesma consciência do desperdício de bens quando empenhados apenas nesta outra guerra chamada comércio; percebam, contudo, que o desperdício ocorre da mesma maneira.

Lancemos agora um olhar mais atento a esse tipo de guerra, passemos por algumas de suas formas, com o intuito de observar como o “queimar, afundar e destruir” é nelas praticado.

Em primeiro lugar, está sua forma que chamamos de rivalidade nacional, que é atualmente a causa de toda a guerra de pólvora e baioneta disputada pelas nações civilizadas. Nos últimos anos, nós ingleses evitamos tomar parte em tais disputas, exceto nas felizes ocasiões em que não havia risco para nós, em que toda matança era realizada apenas por um lado, ou pelo menos quando acreditávamos que seria assim. Há tempos nós evitamos guerra de pólvora com um inimigo respeitável, e vou dizer por que: porque possuíamos a maior fatia do mercado mundial; nós não queríamos brigar por ela como uma nação, uma vez que já a possuíamos; mas agora isso está mudando de maneira significativa e, para um socialista, bastante salutar; nós estamos perdendo ou já perdemos a maior fatia; trata-se agora de uma desesperada “competição” entre as grandes nações civilizadas pelo mercado mundial, e amanhã pode ser uma guerra. Como resultado, a promoção da guerra (mesmo que não seja em grande escala) não se faz mais apenas em nome da honra e da glória, à moda dos antigos Tories, os quais, se de fato atribuiam a ela algum sentido, era o de que uma guerra Tory apresentava-se como boa ocasião para colocar de lado a democracia; nós mudamos tudo isso, e agora é um tipo completamente diferente de político que encontra-se propenso a nos conclamar ao “patriotismo”, como é chamado. Os líderes dos autodenominados liberais progressistas, pessoas de discernimento, cientes de que movimentos sociais estão acontecendo, e sensíveis ao fato de que o mundo seguirá adiante com sua ajuda ou sem ela – são eles os belicosos ufanistas desses últimos tempos. Não afirmo que eles sabem o que estão fazendo: políticos, como é de conhecimento comum, mantêm fora de seu campo de visão tudo que possa vir a acontecer mais de seis meses à frente; mas o que está sendo feito é o seguinte: o atual sistema, ao qual as rivalidades nacionais são inerentes, está nos empurrando para uma desesperada disputa por mercado, em pé de igualdade com as demais nações, uma vez que, como disse, nós perdemos o comando daquilo que antes tínhamos. “Desesperada” não é uma palavra excessivamente forte. Nós deixaremos esse impulso de dominar mercados nos levar para onde ele queira ou precise. Hoje, é ao sucesso no roubo e à desgraça, amanhã, poderá ser à mera derrota e à desgraça.

Isso não é uma digressão, embora, ao dizer isso, eu esteja mais próximo do que é genericamento chamado de política do que voltarei a fazer. Eu quero apenas mostrar o que se torna a guerra comercial quando ela precisa lidar com nações estrangeiras, e que mesmo os mais obtusos podem ver que ela torna o desperdício inevitável. Vivemos atualmente da seguinte maneira com as nações estrangeiras: preparados para arruiná-las sem guerra, se possível, com guerra, se necessário, sem falar por ora na vergonhosa exploração de tribos selvagens e povos bárbaros, aos quais impomos nossas tralhas e hipocrisias sob a mira do canhão.

Bom, certamente o socialismo pode oferecer uma alternativa frente a tudo isso. Ele pode; pode oferecer paz e amizade no lugar da guerra. Nós podemos viver sem nenhuma rivalidade nacional, reconhecendo que, embora o melhor para aqueles que sentem constituir naturalmente uma comunidade (identificada por um nome) seja governar a si mesmos, nenhuma comunidade na civilização deveria sentir que seus interesses se opõem aos das demais, suas condições ecômicas sendo, de todo modo, similares; desse modo, qualquer cidadão de uma comunidade poderia trabalhar e viver sem transtornos quando estivesse em país estrangeiro, e encontraria seu lugar naturalmente; assim, todas as nações civilizadas formariam uma grande comunidade, decidindo conjuntamente sobre o tipo e a quantidade da produção e distribuição necessárias; trabalhando em certa produção onde ela poderia se efetuar melhor; evitando desperdício a todo custo. Pense na quantidade de desperdício que seria evitado, no quanto tal revolução contribuiria para a riqueza do mundo! Que criatura na terra seria prejudicada por tal revolução? Não ficariam todos melhores? E o que a impede? Vou lhes dizer.

Enquanto isso, passemos da “competição” entre nações para aquela entre os “organizadores do trabalho”, grandes firmas, sociedades anônimas, capitalistas em suma, e veremos como a competição “estimula a produção” entre eles: de fato, ela o faz; mas que tipo de produção? Bom, produção de algo a ser vendido com lucro, ou seja, produção de lucro; e note como a guerra comercial estimula isso: certo mercado está demandando bens; há, digamos, cem industrais que fazem o tipo de bem sob demanda, e cada um deles gostaria de dominar o mercado; eles lutam desesperadamente para conseguir a maior fatia do mercado que puderem, com o resultado óbvio de que o bem é produzido em excesso, o mercado se satura, e toda essa fúria produtiva naufraga em seu próprio resultado. Isso não lhes parece guerra? Vocês não veem o desperdício – desperdício de trabalho, habilidade, esperteza, enfim, desperdício de vida? Bom, vocês poderiam dizer, mas abaixa o preço dos bens. Em certo sentido, isso acontece; mas só aparentemente, à medida que os salários tendem a cair para os trabalhadores comuns na mesma proporção em que os preços baixam; e a que preço conseguimos essa aparência de preços baixos! Dizendo sem rodeios, ao preço de enganar o consumidor e de fazer passar fome o real produtor para o benefício do jogador, que usa tanto consumidores quanto produtores como suas vacas leiteiras.

Eu não preciso me aprofundar no tema da adulteração, pois todos sabemos o papel que ela desempenha nesse tipo de comércio; mas lembrem-se de que ela é um efeito necessário da produção de lucro por meio da produção de bens, que é o negócio do assim chamado industrial; e entendam que o consumidor, tomado como massa, encontra-se indefeso frente ao jogador; os bens lhe são forçados por seu preço baixo, e com eles certo padrão de vida que a agressiva baixa de preços determina; tão espraiada é a maldição da guerra comercial que nenhum país está seguro da desolação que ela traz; tradições de milênios em um mês são colocadas abaixo por ela; ela toma de assalto um país fraco ou semi-bárbaro e todo romance, prazer e arte que lá existia é atirado em uma lama de sordidez e feiúra; os artífices indianos ou javaneses não podem mais praticar sua arte com tranquilidade, trabalhando poucas horas por dia para produzir um labirinto de estranha beleza em uma peça de tecido: uma máquina a vapor é ligada em Manchester, e esta vitória sobre a natureza e sobre milhares de dificuldades é utilizada para o trabalho sórdido de produzir imitações de baixa qualidade da cerâmica chinesa, e o trabalhador asiático, se não morre em seguida de fome, como muitas vezes ocorre, é levado também ele a uma fábrica, para abaixar o salário de seu colega trabalhador de Manchester, e nada sobra de sua identidade, exceto um provável tanto de medo e de ódio do seu mestre inglês. O morador das ilhas do sul é obrigado a largar seu ofício de talhar canoas, seu doce descanso e suas graciosas danças para tornar-se o escravo de um escravo: calças, tralhas, rum, missionários e doenças fatais – ele precisa engolir toda essa civilização como um pacote, e nem ele nem nós podemos ajudá-los até que a ordem social acabe com a terrível tirania do jogo que o arruinou.

Esses são os tipos de consumidor: passemos agora ao produtro; refiro-me ao real produtor, o trabalhador; como essa luta pelos espólios do mercado o afeta? O industrial, na avidez de sua guerra, teve que agregar em uma única vizinhança um vasto exército de trabalhadores, ele os treinou até que estivessem aptos para um ramo específico de produção, isto é, para disso tirar lucro, com o resultado de torná-los inaptos para qualquer outra coisa: bem, quando o mercado que ele alimenta se satura, o que acontece com esse exército, no qual cada um dos soldados vinha dependendo de uma demanda estável e agindo, como só podia agir, como se ela fosse durar para sempre? Vocês sabem muito bem o que acontece com esses homens: a porta da fábrica é fechada na cara deles; frequentemente em uma grande perte deles, e, na melhor das hipóteses, no exército de trabalhadores da reserva, empregados na época da inflação. O que acontece com eles? Nós sabemos bastante bem. Mas o que não sabemos, ou escolhemos não saber, é que essa reserva do exército de trabalho é uma necessidade absoluta para a guerra comercial; se nossos industriais não tivessem esses pobres diabos à disposição para afixar às máquinas quando a demanda crescesse, outros industriais na França, Alemanha ou América iriam aproveitar e tomar o mercado para si.

Então vejam: como vivemos agora, é necessário que uma vasta parte da população industrial seja exposta ao perigo da fome periódica, e não para o benefício de pessoas em outra parte do mundo, mas para sua degradação e escravização.

Deixem suas mentes se concentrarem por um momento no tipo de desperdício que isso significa, essa abertura de novos mercados em países selvagens e bárbaros, que é o exemplo extremo da força que desempenha sobre o mundo o mercado voltado ao lucro, e vocês certamente verão que horrível pesadelo é tal mercado: ele nos mantém suando e temerosos por nossa subsistência, incapazes de ler um livro, ou apreciar uma pintura, ou de ter campos agradáveis para caminhar, ou de ficar ao sol, ou de compartilhar do conhecimento de nosso tempo, de ter, em suma, prazeres animais ou intelectuais; e para quê? Para continuarmos vivendo a mesma vida de escravo até morrermos, com o objetivo de proporcionar a um homem rico aquilo que denominamos uma vida de conforto e luxo; o que significa dizer: uma vida tão vazia, nociva à saúde e degradada que no todo, talvez, tal homem esteja ainda pior do que os trabalhadores; no que diz respeito ao resultado de todo esse sofrimento, a sorte grande é tirada quando ele é absolutamente nenhum, quando se pode dizer que os produtos não causaram nenhum bem; pois mais frequentemente eles causam prejuízos a muitas pessoas, e nós trabalhamos, gememos e morremos para produzir veneno e destruir nossos irmãos.

Bom, para mim tudo isso é guerra, e resultado da guerra; não, dessa vez, de guerra entre nações, mas entre firmas ou unidades capitalistas competindo entre si; e é essa guerra das firmas que impede a paz entre as nações, que vocês certamente concordaram ser necessária; saibam que a guerra é o própria ar que essas firmas em luta respiram; e elas conseguiram agora, em nossa época, acumular em suas mãos quase todo poder político, e elas se unem em cada país com o propósito de fazer seus respectivos governos cumprirem apenas duas funções: a primeira é atuar internamente como uma poderosa força policial, para preservar o ringue no qual o forte subjuga o fraco; a segunda é atuar externamente como uma espécie de força pirata, uma bomba para explodir as portas que levam aos mercados do mundo: mercados a qualquer preço no exterior, privilégios intocados, falsamente denominados laissez-faire,[1] ao menos dentro das fronteiras; garantir isso é o único propósito do governo tal como nossos capitães da indústria são capazes de concebê-lo. Agora, preciso mostrar a razão de tudo isso, e sua base, tentando responder a questão: por que os capitalistas conseguiram todo esse poder, ou pelo menos, por que conseguem mantê-lo?

Isso nos leva à terceira forma de guerra comercial: a última, e aquela na qual todas as demais estão baseadas. Nós falamos primeiro da guerra entre nações rivais; em seguida, daquela entre firmas rivais: agora precisamos falar de homens rivais. Do mesmo modo que as nações, sob o atual sistema, são impelidas a competir umas com as outras pelos mercados do mundo, e que as firmas dos capitães da indústria precisam lutar por uma parte do lucro desses mercados, também os trabalhadores precisam competir entre si – pela sobrevivência; e é essa constante competição ou guerra entre eles que permite aos fazedores de lucro[2] tirar seu proveito, e por meio da riqueza assim obtida colocar todo poder executivo do país em suas mãos. Mas esta é a diferença entre a posição dos trabalhadores e a dos fazedores de lucro: para os últimos, a guerra é necessária; o fazer lucro não é possível sem competição, individual, corporativa, nacional; mas é possível trabalhar para subsistência sem competir; pode-se combinar ao invés de competir.

Eu disse que a guerra era o sopro da vida dos fazedores de lucro; do mesmo modo, a combinação é o da vida dos trabalhadores. A classe trabalhadora ou proletariado não pode sequer existir como classe sem uma forma ou outra de combinação. A própria necessidade que forçou os fazedores de lucro a reunir seus homens primeiro nas oficinas, organizados pela divisão do trabalho, e em seguida nas grandes fábricas organizadas pelas máquinas, e assim, gradualmente, a atraí-los para grandes cidades e centros da civilização, deu luz a uma nova classe trabalhadora ou proletariado: e foi isso que lhes deu uma existência mecânica, por assim dizer. Notem, eles encontram-se de fato combinados em grupos sociais para a produção de bens, mas por enquanto somente de maneira mecânica; eles não sabem no que estão trabalhando, nem para quem, porque eles estão combinados com o propósito de produzir bens que têm como parte essencial o lucro de um mestre, e não bens para seu próprio uso: enquanto fizerem isso, e competirem entre si para fazê-lo, eles serão e se sentirão simplesmente uma parte das firmas sobre as quais falei; eles serão, com efeito, somente uma parte da máquina de produção de lucro; e enquanto isso durar, a meta dos fazedores de lucro será reduzir o preço de mercado dessa parte humana do maquinário; isto é, uma vez que eles já possuem o trabalho de homens mortos, na forma de capital e de maquinas, é do seu interesse, ou podemos dizer necessidade, pagar o mínimo possível pelo trabalho de homens vivos que eles precisam comprar a cada dia: e uma vez que os trabalhadores que eles empregam nada têm exceto sua força de trabalho, eles são forçados a aceitar receber menos que outros para conseguirem trabalho e salário, permitindo ao capitalista jogar seu jogo.

Eu disse que, como as coisas são, os trabalhadores figuram como parte de firmas competidoras, um acessório do capital. Contudo, eles só o são por coação; e mesmo sem estarem conscientes disso, eles lutam contra essa coação e seus resultados imediatos, a redução de seus salários, de seu padrão de vida; e isso eles fazem, precisam fazer, tanto como classe quanto individualmente: do mesmo modo que os escravos de um grande senhor romano, embora sentissem de forma aguda ser parte de uma casa, ainda assim, coletivamente, eram uma força reservada a sua destruição, e individualmente, roubavam de seu senhor sempre que podiam fazê-lo com segurança. Aqui, portanto, vejam, está outra forma de guerra necessária à maneira como vivemos atualmente, a guerra de classe contra classe, a qual, quando se acirrar, e ela parece se acirrar agora, vai destruir essas outras formas de guerra sobre as quais viemos falando; ela tornará insustentável a posição dos fazedores de lucro e a perpétua guerra comercial; ela destruirá o presente sistema de privilégio competitivo, ou guerra comercial.

Agora observem, eu disse que, para a existência dos trabalhadores, era a combinação, não a competição, que se fazia necessária, enquanto, para a dos fazedores de lucro, a combinação era impossível e a guerra necessária. A atual posição dos trabalhadores é a de maquinário do comércio, ou, em termos mais diretos, seus escravos; quando eles mudarem essa posição e se tornarem livres, a classe dos fazedores de lucro deixará necessariamente de existir; e qual será, então, a posição dos trabalhadores? Mesmo na presente situação, eles são a parte necessária da sociedade, a parte vivificante; as demais classes não são mais do que parasitas que deles se sustentam. Mas o que seriam eles, o que serão, quando, de uma vez por todas, decobrirem seu verdadeiro poder e deixarem de competir uns com os outros pela sobrevivência? Eu lhes direi: eles serão a sociedade, eles serão a comunidade. E, sendo a sociedade – isto é, não havendo nenhuma classe fora a deles para combater – eles podem então regular seu trabalho de acordo com suas reais necessidades.

Muito se fala sobre oferta e demanda, mas a oferta e demanda a que normalmente se refere é uma coisa artificial; ela encontra-se subordinada às oscilações dos jogos do mercado; a demanda é forçada, como sugeri acima, antes de ser suprida; além disso, como cada produtor trabalha contra os demais, ele não pode diminuir a produção até que o mercado se sature e que os trabalhadores, jogados à rua, fiquem sabendo que houve superprodução, mas permaneçam, em meio a essa abundância de bens encalhados, carentes até mesmo de bens necessários, porque a riqueza que eles próprios criaram é “mal-distribuída”, como chamamos – isto é, injustamente tomada deles.

Quando os trabalhadores forem a sociedade, eles vão regular seu trabalho, de modo que a oferta e a demanda sejam genuínas, não um jogo; as duas, então, serão proporcionais, já que é a mesma sociedade que demanda e que supre; não haverá mais fomes artificiais então, não mais pobreza em meio à superprodução, em meio a um enorme estoque das próprias coisas que poderiam suprir a pobreza e transformá-la em bem-estar. Em resumo, não haverá desperdício e, portanto, não haverá tirania.

Bom, o que o socialismo oferece no lugar dessas penúrias artificiais, com sua (assim chamada) superprodução, é, uma vez mais, regulação dos mercados; proporcionalidade da oferta e da demanda; eliminação do jogo, e consequentemente do desperdício; não excesso de trabalho e exaustão para o trabalhador durante um mês e falta de trabalho e ameaça de fome no mês seguinte, mas trabalho estável e bastante descanso todos os meses; não os bens baratos do mercado, isto é, bens adulterados, que não possuem praticamente nada de bom, meros veículos para produção de lucro; nenhum trabalho seria gasto com coisas como essas, que as pessoas deixariam de querer tão logo deixassem de ser escravas. Não à produção desses, mas à dos bens mais adequados ao uso dos consumidores seria destinado o trabalho; pois sendo abolido o lucro, as pessoas poderiam ter o que quisessem, em vez daquilo que os fazedores de lucro nacionais ou estrangeiros lhes forçam a obter.

Pois o que quero que vocês entendam é o seguinte: ao menos em todos os países civilizados há abundância para todos – há, ou, pelo menos, poderia haver. Mesmo com o trabalho mal direcionado como é no presente, uma distribuição equitativa da riqueza disponível deixaria todas as pessoas comparativamente confortáveis; mas isso não é nada perto da riqueza que poderíamos ter se o trabalho não fosse mal direcionado.

Observem, nos primeiros dias da história do homem ele era escravo de suas necessidade mais imediatas; a natureza era poderosa e ele frágil, e ele tinha que travar com ela uma guerra constante por sua ração diária e um abrigo qualquer. Sua vida era limitada por essa luta constante; toda sua moral, leis, religião são, na verdade, derivadas dessa incessante tarefa de conseguir sua subsistência. O tempo passou e, aos poucos, gradualmente, ele se tornou mais forte, até que agora, depois de muitas eras, conquistou quase que completamente a Natureza, e seria razoável pensar que disporia então de tempo para voltar seu pensamento na direção de coisas mais elevadas do que o jantar do dia seguinte. Mas, que lástima! Seu progresso tem sido incerto e intermitente; e embora ele tenha de fato conquistado a natureza e tenha suas forças sob seu controle para fazer o que queira, ele ainda precisa conquistar a si mesmo; ele ainda precisa pensar como utilizar da melhor maneira essas forças que ele dominou. Atualmente ele as utiliza de maneira cega, tola, como alguém movido pelo mero acaso. Até parece que o fantasma da eterna busca por comida, que um dia foi senhor do selvagem, continua assombrando o homem civilizado; este trabalha como em um sonho, assustado por meras esperanças irreais nascida da vaga lembrança de dias passados. Ele precisa acordar desse sonho, e encarar as coisas como elas realmente são. A conquista da natureza está completa, não podemos pensar assim? E agora nossa tarefa é, já há algum tempo, a organização do homem, que maneja as forças da Natureza. Até que isso seja ao menos tentado, jamais poderemos nos livrar do terrível fantasma do medo da fome, que, com seu demônio irmão, o desejo de dominação, leva-nos à injustiça, crueldade e covardia de todo tipo: deixar de temer nossos companheiros e aprender a confiar neles, acabar com a competição e construir cooperação – é essa nossa única necessidade.

Agora, atentemos aos detalhes; vocês provavelmente sabem que cada um na civilização vale, por assim dizer, mais que sua pele; trabalhando, como é necessário, socialmente, pode-se produzir mais que o necessário para manter-se vivo e em boas condições; já há séculos isso ocorre; com efeito, desde o tempo em que as tribos em guerra passaram a escravizar seus inimigos conquistados em vez de matá-los; e é claro que a capacidade de produzir excedente se incrementou gradualmente, e de maneira cada vez mais rápida, até que, hoje, um homem pode, por exemplo, tecer em uma semana pano suficiente para vestir toda uma vila por anos: e a verdadeira questão da civilização sempre foi o que fazer com o produto excedente do trabalho – uma questão que o fantasma, medo da fome, e seu companheiro, desejo de dominação, levaram os homens a responder sempre de maneira terrível, e da pior maneira de todas, talvez, no momento presente, quando a produção extra cresceu de maneira prodigiosa. A resposta prática sempre foi a da luta entre os homens pela posse privada de uma cota desproporcional desses excedentes, e todos os artifícios foram utilizados pelos que conseguiam se apropriar da cota alheia com o intuito de manter os que eram roubados em subjugação perpétua; e estes últimos, como já sugeri, não tinham chance de resistir à extorsão enquanto eram poucos e espalhados, e consequentemente, pouca noção podiam ter de sua opressão comum. Mas agora, devido à própria busca dessas cotas indevidas de lucro, ou ganhos extra, os homens se tornaram mais dependentes uns dos outros para produzir, e foram levados, como já mencionei, a se juntar de maneira mais completa com esse objetivo; o poder dos trabalhadores – isto é, da classe roubada ou extorquida – aumentou enormemente, e só lhes resta entender que possuem tal poder. Quando o fizerem, eles serão capazes de dar a resposta certa à questão do que deve ser feito com o produto extra do trabalho, que supera o tanto que mantém o trabalhador vivo para trabalhar: essa resposta é a de que o trabalhador terá tudo o que produzir, e não será de maneira nenhuma extorquido; e lembrem-se de que ele produz coletivamente, e, portanto, ele fará efetivamente o trabalho que for requerido dele de acordo com sua capacidade, e, do produto desse trabalho, ele terá o que precisar, porque, vejam, ele não pode usar mais de que precisa – pode apenas desperdiçar.

Se esse arranjo lhes parece uma idealização absurda, como pode bem ser o caso, considerando nossa atual condição, devo defendê-la dizendo que, quando os homens estiverem organizados de modo que seu trabalho não seja desperdiçado, eles serão libertos do medo da fome e do desejo de dominação, e terão liberdade e tempo para olhar ao redor e observar o que realmente precisam.

Parte disso, posso conceber eu mesmo, e vou expor minhas ideias para vocês, para que possam compará-las com as suas, lembrando sempre que as próprias diferenças nas capacidades e desejos dos homens, uma vez que as necessidades comuns de alimento e abrigo forem supridas, tornará mais fácil a lida com seus desejos em um estado de coisas comunitário

O que é que eu preciso, portanto, que as circunstâncias ao redor podem me dar – meu trato com outros homens –, deixando de lado acidentes inevitáveis que a cooperação e o planejamento não podem controlar, se é que isso existe?

Bem, em primeiro lugar, demando uma boa saúde; e me parece que uma vasta parte das pessoas na civilização nem mesmo sabe o que isso significa. Sentir a mera vida como um prazer; aproveitar o movimento de seus membros e exercitar as potências do corpo; brincar com o sol, o vento e a chuva; regozijar-se na devida satisfação dos apetites corporais de um animal humano sem medo de degradação ou sentimento de transgressão: sim, e além disso ser bem constituído, com membros retos, constiutição robusta, fisionomia expressiva – ser, em uma palavra, belo – também isso eu reivindico como necessário. Se não pudermos ter esses requerimentos satisfeitos, não seremos mais do que pobres criaturas; não importa o que dizem essas terríveis doutrinas ascéticas que, nascidas do desespero dos oprimidos e degradados, têm sido utilizadas por eras como instrumentos para a manutenção dessa opressão e degradação.

Creio que essa demanda por um corpo saudável para cada um de nós carrega consigo todo o resto requerido: pois quem sabe onde foram plantadas as sementes das doenças de que até os ricos sofrem? Do luxo de um ancestral, talvez; mas eu suspeito que mais frequentemente de sua pobreza. E quanto aos pobres: um médico distinto disse que os pobres sofrem sempre de uma doença – fome; e sei ao menos disto: se um homem é de algum modo sobrecarregado, não pode desfrutar do tipo de saúde a que me refiro; tampouco o pode se encontra-se continuamente acorrentado a uma tediosa série de trabalho mecânico, sem esperança de livrar-se dela; ou se vive em uma sórdida ansiedade crônica por sua subsistência; ou se mora mal; ou se é impedido de desfrutar das belezas naturais do mundo; ou se não goza de nenhum divertimento para reavivar seu espírito de tempos em tempos: todas essas coisas, que tocam de maneira mais ou menos direta em sua condição corporal, derivam-se da minha exigência por uma vida saudável; de fato, eu suspeito que essas condições devem vigorar por diversas gerações antes que uma população seja no geral realmente saudável, como sugeri acima; mas não duvido de que com o passar do tempo, e satisfeitas outras condições, sobre as quais falarei adiante, uma tal população seja gradaualmente criada, vivendo ao menos no desfrute da vida animal, feliz portanto, e belos de acordo com a beleza de sua raça. Nesse ponto, vale notar que as próprias variações nas raças humanas são causadas pelas condições na qual elas vivem, e embora nas partes mais hostis do mundo nós não tenhamos algumas vantagens de clima e ambiente, ainda assim, se estivéssemos trabalhando para subsistência e não por lucro, poderíamos facilmente neutralizar muitas das disvantagens de nosso clima, ao menos o suficiente para possibilitar o pleno desenvolvimento de nossa raça.

Minha demanda seguinte é por educação. E não digam que toda criança inglesa atualmente é educada; esse tipo de educação não cumpre minha exigência, mesmo que eu fique feliz em admitir que ela já é alguma coisa: alguma coisa, mas apenas uma classe de educação. O que reivindico é educação liberal; isto é, oportunidade de possuir uma cota de qualquer conhecimento existente no mundo de acordo com minha capacidade e interesse, histórico ou científico; e também de possuir uma cota das habilidades manuais que existem no mundo, seja das artes industriais ou das belas artes: pintura, escultura, musica, teatro ou coisas do gênero; reivindico ser ensinado, se eu puder aprender, mais de um ofício para exercer em prol da comunidade. Vocês podem pensar que essa demanda é um exagero, mas estou certo de que esse não é o caso se a comunidade puder ganhar alguma coisa de minhas habilidades especiais, se nosso destino não for o de sermos rebaixados a um tosco nível de mediocridade, como somos agora todos, exceto os mais fortes e resistentes de nós.

Eu sei que essa demanda por educação envolve ainda a de investimentos públicos na forma de bibliotecas, escolas e outras instituições públicas, do tipo que nenhuma pessoa privada, nem mesmo as mais ricas, poderia encomendar: mas essa demanda eu faço com bastante confiança, tendo a certeza de que nenhuma comunidade sensata aguentaria passar sem esses instrumentos de uma vida decente.

A demanda por educação envolve também a demanda por ócio abundante, a qual faço, mais uma vez, com confiança, porque quando nos livrarmos da escravidão do lucro, o trabalho será organizado com tão pouco desperdício que nenhum grande peso será colocado nos ombros dos cidadãos individuais; cada um deles, naturalmente, terá que cumprir sua cota de trabalho útil. Vocês devem notar que até agora todo o maravilhoso maquinário que inventamos serviu apenas para aumentar a quantidade de bens portadores de lucro; em outras palavras, para aumentar o lucro embolsado por indivíduos para sua própria vantagem, parte do qual usam como capital para a produção de mais lucro, sempre com o mesmo desperdício, e outra parte como riquezas privadas ou meios para uma vida luxuosa, o que também é um enorme desperdício – tal uso deve ser visto, de fato, como uma espécie de fogueira na qual os ricos queimam os produtos do trabalho que extorquiram dos trabalhadores em excesso ao que podem utilizar. Desse modo, apesar de nossas invenções, nenhum trabalhador trabalha, sob o presente sistem, sequer uma hora a menos por conta das máquinas que se diz poupar trabalho. Mas, em um estado de coisas mais feliz, as máquinas seriam usadas simplesmente para poupar trabalho, propiciando uma vasta quantidade de ócio à comunidade, à qual pode ser adicionada aquela quantidade de ócio obtida pela abolição da luxuosidade inútil e da guerra comercial.

E posso dizer em relação a esse ócio que não apenas eu não causariam mal a ninguém com ele, mas também que frequentemente eu proporcionaria diretamente um bem à comunidade, praticando artes e ocupações para minhas mãos ou cérebro que dariam prazer a diversos cidadãos; em outras palavras, boa parte do melhor trabalho seria realizado em momentos ociosos de homens libertos de toda ansiedade ligada a sua subsistência, e desejosos por exercer seus talentos especiais, como são todos os homens, não, todos os animais.

Com esse ócio eu poderia satisfazer-me e expandir minha mente com viagens, se assim o quisesse: pois imaginemos, por exemplo, que eu fosse um sapateiro; se a devida ordem social fosse estabelecida, daí não seguiria uma obrigação de produzir sapatos sempre em um mesmo lugar; uma parcela de arranjos facilmente concebíveis me permitiriam fazer sapatos em Roma, digamos, por três meses, e voltar com novas ideias de construção, absorvidas pelo contato com trabalhos de eras passadas, dentre outras coisas que poderiam, talvez, ser úteis em Londres.

Mas, para que meu ócio não se degenerasse em indolência e desorientação, preciso colocar uma demanda por trabalho. Nada para mim é mais importante que essa demanda, e peço licença para falar um pouco dela. Mencionei que provavelmente usaria meu ócio para fazer uma boa quantidade daquilo que atualmente é chamado de trabalho; mas está claro que, se sou um membro de uma comunidade socialista, preciso realizar minha cota de trabalho mais pesado – isto é, minha cota de trabalho adequado à minha capacidade, não uma cama de Procusto; mas mesmo essa cota de trabalho necessária à existência da mais simples vida social precisa, em primeiro lugar, ser um trabalho razoável; ou seja, um trabalho cuja necessidade um bom cidadão possa reconhecer; como membro da comunidade, preciso concordar em realizar o trabalho.

Para pegar dois exemplos marcantes do contrário, eu não me submeteria a ser colocado em um traje vermelho e conduzido em marcha para atirar em meus amigos franceses, alemães ou árabes em uma briga que não compreendo; prefiro me rebelar do que fazer tal coisa. Tampouco me submeteria a desperdiçar meu tempo e energia produzindo um brinquedo frívolo que sei que somente um tolo poderia desejar; prefiro me rebelar do que fazer tal coisa.

Contudo, vocês podem ter certeza de que em um estado de ordem social eu não terei nenhuma necessidade de me rebelar contra essas amostras de desrazão; infelizmente sou obrigado a partir do modo como vivemos para falar sobre o modo como poderíamos viver.

Se o trabalho razoável necessário for de natureza mecânica, devo receber ajuda de uma máquina, não para baratear meu trabalho, mas com o objetivo de reduzir ao máximo o tempo gasto nele, e de me permitir pensar em outras coisas enquanto tomo conta da máquina. E se o trabalho for particulamente duro ou exaustivo, vocês concordarão comigo, estou certo, quando digo que devo realizar um revezamento com outras pessoas em sua execução; quero dizer que não se deve esperar de mim, por exemplo, que eu passe minhas horas de trabalho sempre no fundo de uma mina de carvão. Creio que esse tipo de trabalho deveria ser em larga medida trabalho voluntário, e realizado, como disse, em turnos. E o que digo dos trabalhos muito duros também vale para os trabalhos desagradáveis. Por outro lado, eu duvidaria da masculinidade de um homem saudável e forte que não sentisse prazer no trabalho duro; sempre supondo que ele trabalha nas condições que descrevi – isto é, sentindo que seu trabalho é útil (e portanto honrado), que não será contínuo ou sem esperança, e que ele o está realizando por livre e espontânea vontade.

A última demanda que faço para meu trabalho é que os ambientes nos quais trabalho, fábricas ou oficinas, sejam agradáveis, assim como são agradáveis os campos onde a maior parte do trabalho necessário é realizado. Acreditem, não há nada que impeça isso de ser feito, exceto a necessidade de extrair lucro de todos os bens; em outras palavras, os bens são barateados às custas de obrigar as pessas a trabalhar em espeluncas lotadas, insalubres, miseráveis e barulhentas: ou seja, elas são barateadas às custas da vida do trabalhador.

Bom, já falei o suficiente a respeito de minhas exigências para o trabalho necessário, meu tributo para a comunidade. Acredito que, à medida que avançassem em sua capacidade de levar adiante a ordem social, as pessoas perceberiam que a vida então vivida seria muito menos dispendiosa do que agora temos ideia; e que, depois de um tempo, as pessoas estariam mais ansiosas para conseguir trabalho do que para evitá-lo; que nossas horas de trabalho seriam mais como alegres grupos de moços e moças, jovens e velhos, divertindo-se ao trabalhar do que a desagradável exaustão que costuma ser hoje. Chegaria então o tempo de um novo nascimento da arte, tão falado e há muito adiado; as pessoas não teriam como não mostrar seu júbilo e prazer no trabalho, e desejariam sempre expressá-lo de forma tangível e razoavelmente duradoura; então a oficina se tornaria uma vez mais uma escola de arte, de cuja influência ningém poderia escapar.

O termo arte me leva à minha última exigência: a de que o ambiente material de minha vida seja agradável, generoso e belo; sei que essa é uma grande exigência, mas direi o seguinte sobre ela: se ela não puder ser satisfeita, se todas as comunidades civilizadas não puderem fornecer tais ambientes para todos os seus membros, eu não quero que o mundo subsista; é apenas uma lástima o homem ter alguma vez existido. Não acho que seja possível, nas presentes circunstâncias, insisir demais nesse ponto. Eu tenho certeza de que o tempo virá em que as pessoas terão dificuldade em acreditar que uma comunidade tão rica como a nossa, tendo tanto comando sobre a natureza externa, poderia se submeter a uma vida tão mesquinha, pobre e suja quanto a nossa.

E, de uma vez por todas, nada em nossas circunstâncias, exceto a caça por lucro, leva-nos a isso. É o lucro que atrai os homens para enormes e ingovernáveis aglomerações chamadas cidades, por exemplo; o lucro que os amontoa, quando estão lá, em alojamentos sem jardins ou espaços abertos; o lucro que não toma as precauções mais ordinárias para evitar que todo um distrito se envolva em nuvens de fumaça tóxica; que transforma belos rios em esgotos imundos; que condena a todos, exceto os ricos, a viver em casas estupidamente apertadas e confinadas, na melhor das hipóteses, e na pior em casas cuja miséria não tem como ser descrita.

É quase inacreditável que precisemos tolerar tamanha estupidez; e não a deveríamos tolerar, se pudéssemos evitá-la. Nós não precisaremos mais tolerá-la quando os trabalhadores tirarem da cabeça que não são mais do que apêndices da geraçã de lucro, que quanto mais lucro se fizer, mais empregos de altos salários existirão para eles, e que, portanto, toda inacreditável sujeira, desordem e degradação da civilização moderna são sinais de sua prosperidade. Longe disso, são sinais de sua escravidão. Quando não forem mais escravos, eles exigirão que cada homem e cada família sejam alojados generosamente; que toda criança possa brincar em um jardim próximo de onde seus pais moram; que as casas sejam, por sua evidente decência e ordem, ornamentos da natureza, e não desfiguramentos dela; pois a decência e ordem acima mencionadas, quando levadas ao devido tom, iriam certamente levar à beleza na construção. Tudo isso, claro, pressupõe pessoas – isto é, toda a sociedade – devidamente organizadas, tendo em sua mão os meios de produção, não para serem possuídos por algum indíduo, mas usados por todos na medida em que a ocasião requeresse seu uso; e só pode ser realizado nesses termos; em quaisquer outros termos, as pessoas seriam impelidas a acumular riqueza privada para si, e assim, como vimos, a desperdiçar os bens da comunidade e perpetuar a divisão de classes, o que significa guerra e desperdício contínuos.

Sobre em que medida seria necessário ou desejável que as pessoas sob a ordem social vivessem juntas, nós podemos diferir bastante de acordo com nossas tendências frente à vida social. De minha parte, não posso ver por que seria um problema comer com aqueles com quem trabalhamos; estou certo de que com muitas coisas, como livros valiosos, pinturas e o esplendor dos arredores, ficaremos melhores juntando o que temos; e preciso dizer que frequentemente, quando me sentia enjoado pela estupidez das casas de coelho que os ricos construiam para si em Bayswater e outros lugares, me consolava com visões do nobre salão comunal do futuro, pródigo em materiais, generoso em ornamentos dignos, vivo com os mais nobres pensamentos de nosso tempo, e do passado, incorporado à melhor arte que pessoas livres e viris podem produzir; habitação humana tal que nenhuma empreitada privada poderia com ela rivalizar em beleza e adequação, porque somente o pensamento coletivo e a vida coletiva poderiam nutrir as aspirações que dariam luz à sua beleza, ou proporcionar a habilidade e o ócio para sua realização. De minha parte, pensaria ser o oposto de um problema se tivese que ler meus livros e encontrar meus amigos em tal lugar; tampouco penso que estaria melhor em uma casa vulgar, lotada de estofados que desprezo, em todos os aspectos degradante para a mente e enervante para o corpo, simlpesmente porque a chamo de minha própria, ou minha casa.

Não é um comentário original, mas o faço aqui: minha casa é onde encontro pessoas com quem simpatizo, que amo. Bem, essa é minha opinião como um homem de classe média. Se um homem da classe trabalhadora consideraria a posse de um miserável quarto para sua família melhor do que sua parte do palácio de que falei, isso deve ser deixado à opinião dele e à imaginação da classe média, a qual pode talvez conceber o fato de que o trabalhador está espremido em espaço e em conforto.

Antes de encerrar o assunto dos arredores da vida, quero tratar de uma possível objeção. Eu defendi o uso do maquinário para liberar as pessoas das partes mecânicas e repulsivas do trabalho necessário; e sei que para algumas pessoas cultivadas, pessoas com mentalidade artística, máquinas são particularmente desagradáveis, e estes dirão que nunca se conseguirá arredores agradáveis enquanto se estiver cercado de máquinas. Eu não concordo com isso; é o fato de permitirmos às máquinas que sejam nossos mestres e não nossos empregados que macula a beleza da vida nos dias atuais. Em outras palavras, é a marca do terrível crime que cometemos ao usar o controle dos poderes da natureza para escravizar as pessoas, sem nos preocupar com o tanto de felicidade que roubamos de suas vidas.

Ainda assim, para consolo dos artistas, vou dizer o seguinte: creio que um estado de ordem social levaria provavelmente, primeiro, a um grande desenvolvimento das máquinas, para propósito realmente úteis, porque as pessoas ainda estarão ansiosas com a realização do trabalho necessário à manutenção da sociedade; mas, depois de um tempo, elas perceberão que não há tanto trabalho quanto o esperado a ser feito, e então terão tempo livre para pensar sobre o assunto; e se lhes parecer que certa indústria poderia funcionar de forma mais agradável para os trabalhadores, e de maneira mais eficaz no que diz respeito aos bens, se o trabalho manual fosse utilizado no lugar das máquinas, eles certamente se livrarão do maquinário, porque poderão fazê-lo. Isso não é possível agora, não está em nosso arbítrio fazê-lo; nós somos escravos dos monstros que criamos. E tenho esperança de que a própria elaboração das máquinas em uma sociedade cujo propósito não é a multiplicação do trabalho, como agora, mas uma vida prazerosa, como seria na ordem social, levará à simplificação da vida e, então, uma vez mais, à limitação das máquinas.

Bem, são essas então minhas exigências para uma vida decente. Para resumí-las rapidamente: primeiro, um corpo saudável; segundo, uma mente ativa, harmonizada com o passado, o presente e o futuro; terceiro, uma ocupação adequada para um corpo saudável e uma mente ativa; e quarto, um mundo belo no qual se possa viver.

Essas são as condições de vida que o homem refinados de todas as épocas buscou para si. Frequentemente, ele foi tão frustrado em sua busca que lançou olhares saudosos ao passado, para os dias antes da civilização, quando a única ocupação do homem era conseguir a comida de cada dia, e a esperança estava nele dormente ou, ao menos, não podia ser por ele expressada.

Com efeito, se a civilização (como pensam muitos) impede a realização da esperança de garantir tais condições de vida, então a civilização impede a humanidade de ser feliz; e se esse é o caso, então abandonemos todas as aspirações ao progresso – não, todos os sentimentos de boa vontade e afeição entre os homes – e peguemos cada um o que pudermos da pilha de riqueza que os tolos criam para engordar ladrões; ou ainda melhor, encontremos o mais rápido possível alguma forma de morrermos como homens, já que não nos é permitido viver como homens.

Ao invés disso, porém, tomem coragem, e creiam que nós, desta era, apesar de todos os tormentos e desordens, nascemos destinados a uma maravilhosa herança, construída pelo trabalho de todos que vieram antes de nós; e que o dia da organização do homem está nascendo. Não somos nós que podemos construir uma nova ordem social; as eras passadas fizeram a maior parte desse trabalho para nós; mas nós podemos sensibilizar nossos olhos ao sinal dos tempos, e veremos então que a conquista de uma boa condição de vida está se tornando possível para nós, e que é nossa tarefa agora esticar as mão e agarrá-la.

Como? Principalmente, creio, educando as pessoas para perceberem suas reais capacidades como humanos, de modo que sejam capazes de usar para seu próprio bem o poder político que lhes vem sendo rapidamente confiado; para fazê-las ver que o antigo sistema de organização do trabalho para lucro individual está se tornando insustentável, e que todas as pessoas precisam agora escolher entre a confusão resultante da quebra desse sistema e a determinação de se apropriar do trabalho até então organizado para o lucro, e usar sua organização para a subsistência da comunidade: para fazer as pessoas verem que fazedores de lucro individuais não são uma necessidade para o trabalho, e sim uma obstrução, e isso não apenas ou principalmente porque são os eternos pensionistas do trabalho, como de fato são, mas por causa do desperdício de que a sua existência como classe necessita. Tudo isso temos que ensinar às pessoas, depois de ensinarmos a nós mesmos; e admito que o trabalho é longo e árduo; como comecei dizendo, as pessoas se tornaram tão apreensivas à mudança pelo terror da fome que mesmo os menos sortudos encontram-se impassíveis e difíceis de mover. O trabalho pode ser duro, mas a recompensa é certa. O mero fato de que um grupo de homens, mesmo que pequeno, encontra-se reunido como missionários socialistas mostra que a mudança está acontecendo. À medida que a classe trabalhadora, a parte realmente orgânica da sociedade, absorva essas ideias, a esperança neles florescerá, e eles reivindicarão mudanças sociais, muitas das quais sem dúvida não tenderão diretamente para sua emancipação, porque acontecerão sem o conhecimento da única coisa que é necesário reivindicar, igualdade de condições; mas que indiretamente ajudarão a quebrar nossa podre e falsa sociedade, de modo que essa reivindicação por igualdade de condições será então feita, e cada vez mais alto, até que ela tenha que ser escutada, e enfim será necessário apenas um passo e todo o mundo civilizado será socializado; e, olhando para trás, ficaremos estarrecidos em pensar por quanto tempo nos submetemos a viver como vivemos agora.

 

Notas

[1] (N.A.) Falsamente; pois a classe privilegiada possui o suporte do poder executivo, de modo a compelir os desprivilegiados a aceitar seus termos; se isso é “competição livre”, não há sentido nas palavras.

[2] (N.T.) profit-grinders no original.

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